sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Preto e Branco Expressionistas

        1 de fevereiro de 2011

        Uma escala de cinza vai derretendo e perde as formas até virar um preto e branco expressionista.
        Tristeza está sentada no sofá, sai de cena e entra Angústia em um quartinho. Quartinho meio apagado, meio abafado, meio vampiresco, meio assim, bem assim. Senta na cama, fecha as pálpebras com as mãos e cai encolhida.
        Angústia vai afundando no colchão de pouquinho em pouquinho e vai mais um pouco. Ela estende os braços para sair do buraco, mas já está fundo demais, ela não consegue fazer força. As bordas do Colchão estão se juntando, fica só uma frestinha de luz. O Colchão enterra a Angústia.
        Angústia abraça os joelhos e fica pequenininha, bem pertinho das paredes, colada nelas. Fecha os olhinhos e pede para não lembrar, pede para não chorar, pede para nem pensar, pede para dormir, pede para ficar quietinha.

Folhas Órfãs

         30 de junho de 2010

         Eram folhas douradas lançadas aos redemoinhos e todas diziam, venha com sua alma e esconda-se no ar. Sue os cabelos, sue o corpo inteiro e não pare de pular.
         Eram folhas soltas espalhadas, prenda seus pensamentos fora de si, escute a música e deixe seu sistema nervoso sobre as ondas sonoras.
         Eram folhas secas correndo no nada, que seu suor seja nosso orvalho.
         Eram folhas órfãs procurando um pedaço de abrigo, um lado sensível do ser.

Disposição até demais

        15 de maio de 2010

        Uma blusinha amarela, uma calça jeans, um tênis branco e uma disposição para ficar na cama olhando o movimento pendular de um relógio que nem existe mais.
        Uns amigos animados, uma música agitada, um lugar legal e uma disposição para assistir aos filmes que ganhei dos meus pais.
        Uma prova importante, uma atividade que vale nota, uma aula obrigatória e uma disposição para ler livros no conforto da própria casa.
        Uma bebida para curtir, uma droga do momento, uma galera de delirar e uma disposição para escrever e ouvir música.
        Uma animação para levantar a mãozinha para cima, um rapazinho cantando, umas meninas gritando e uma disposição para pular e “bater-cabeça”.
        Um pastor sempre aparecendo, uma igreja imensa, um cantor gospel famoso e uma disposição para compreender o evangelho.
        Um professor falando de técnica, um exercício didático, uma atividade de cálculo e uma disposição para aprender matemática.
        Um público fariseu, uns intelectuais contrafeitos, umas amigas bem relacionadas e uma disposição para conversar com samaritanos e gente chata.
        Provavelmente uma indisposição.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Cada Partícula


          A voz se aquieta cada vez mais e os ouvidos se desesperam. Duas mil e trezentas vozes tratam de mover cada partícula no ar envolta do corpo que não vos fala. Esmera-se em distinguir cada oscilação de partícula.

          Em todo segundo os ouvidos se corrompem, pois não escutam nada, e cada grão de estorvo continua a gritar. Eles acertam os olhos, entram nos ouvidos e inflamam a garganta. Cada um deles desviam a íris e cada um deles tratam de redemoinhar a mente. Eles não darão paz alguma. Alojam-se no crânio e agitam como chocalho de cascavel.

          Se o corpo não parar será embaraçado até que o mesmo dissolva-se frivolamente e todo grão caia sobre o aniquilado trazendo um ausente silêncio para o ser que ainda respira, mas permanece inanimado. Isso tudo se o ser se negar em acalmar os ouvidos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O Movimento Após | O Movimento Após | 2 de 2

                 Tirava os sapatos iniciando o movimento após o movimento do dia. Jogou-se de leve na poltrona e a inclinou para trás. Os braços abertos ficavam pendurados apontando a gravidade. Respirava fundo e suspirava. Estava fresco e o vento soprava na cortina transparente. Alguns papéis voaram. O chão estava limpo e a louça lavada.
                A cabeça encontrava-se confortável naquela poltrona que era quase um colo. A leveza era traduzida nos pés que se alongavam para aproveitar a folga dos sapatos e no jeito de olhar o teto branco. Levou a mão até o pescoço e massageou a nuca subindo até que os dedos entrelaçassem os cabelos.
                Sentia cada metro quadrado de descanso no corpo, a sensação que subia e extrapolava no sorriso chegava a ser empolgante. 

sábado, 19 de outubro de 2013

Antes do após | O Movimento Após | 1 de 2

                Ela já andava na rua esperando o momento. Com todo o movimento do dia uma leveza já acontecia. Com ela estava a ansiedade de chegar em casa contando cada passo a menos que dava.
                Não que o dia fosse um terrível terremoto, mas juntando o ócio ao agradável ela desejava muito que os próximos minutos fossem aquele ponto de espaço dentro de si, um silêncio e uma calmaria apreciáveis notados nos vídeos do ponto de vista de quem vê a Terra azul.
                Perto da porta já estava com a chave na mão, abriu, entrou e já sentiu o frescor do que iniciava naquele momento após o movimento do dia. Tirava os sapatos.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Sabores


Diga-me qual é o sabor, pois tenho saudade. Ah que saudade! Dona Moça, traga-me mais poemas, separe tempo para escreve-los, não permita que esse momento me escape. Registre.
            Amo esse sabor que fica em cima da linha limite do findar da saudade. Esse sorriso espontâneo que treme os lábios ao tentar contê-lo. Deixe-me degustar teus olhos.

terça-feira, 14 de maio de 2013

O Dia


                 Meus teimosos pés vão deslizando, tão teimosos quanto às pernas e o resto todo. Na verdade já não é bem o resto todo, afinal como saberia eu que os pés deslizam se todo o resto fosse transviado?
                É pesado, na verdade leve, mas ainda vivo escolhendo o mais pesado. Sinto-me escorregadio, como se a qualquer hora fosse escapar. Escapar de onde? Do caminho.
                A vista embaça, não me vejo, a voz também embaça, não me ouço. Cada grão de areia se perde no outro e o pé desliza. Olho para o lado e vejo o mar. Vai me afogar. Será? Grito, um grito que não sai da boca, mas martela o peito. Não sei pedir socorro, não sei socorrer, outrora nem sabia que precisava de socorro.
                Se o mar não vem me sinto peixe fora d’água, no entanto não sou peixe, mas ainda me sinto deslocado, é que ainda sou teimoso, mas não todo. Um dia dá-se o jeito.


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Para Planejar-se

Caro navegante ,
Estenda o grande mapa pela mesa. A mesa balança, então cole o mapa com fita adesiva. Apanhe réguas, marcadores, compassos, calculadoras e toda precisão que você aprendeu na corda bamba.  Tome nota de todos os conselhos dos velhos navegantes, dos novos também. Balize o tempo necessário em cada metro quadrado e multiplique por 1,1. Do resultado aproximadamente 9,1% é o que você tem para aplicar em atividades não contabilizadas. Pule, role e corra se for necessário ou se quiser, mas sem desrespeitar a margem de 9,1%. Vale também batucar freneticamente em maré alta.
Por favor, na hora de servir coloque a panela do feijão depois do arroz, pois depois que se dá um passo para por o feijão fica difícil voltar para pegar o arroz sendo que a fila já andou.
Retome seus planos diariamente. Olhe para os dois lados antes de atravessar. Se no meio da viagem você sentir que está perdendo o ar provavelmente é por estar apaixonado pelo reflexo da água, pare com isso! Não se deixe ludibriar pela neblina. Aponte para o lugar certo, e não, o lugar certo não está impresso nos cartões postais dos outros navegantes, e o mar deles não é mais azul. Como diria um amigo, para um marujo novo o mar é algo a ser desbravado e para um velho marujo não passa de um deserto azul. A dica é ser adulto e a dificuldade também.
Outra dica para quem acredita no planejamento, a maior variável é que o mundo gira.