domingo, 28 de setembro de 2014

- | Contato | 1 de x

No dia que cansei colei, colei a orelha no espaço quente que tocou-me as panturrilhas. Mesmo descansada o espaço faria com que a minha perspectiva mudasse fazendo do descansar algo mais significativo que o atual estado de disposição. Eu poderia respirar acoplada a sensação de que o lugar mais estável mantem a temperatura corporal.
O lugar mais quente bombeará o formigar dos lábios. O meu estresse adormecerá. Será um domingo ensolarado ou sábado nublado. Minhas mãos também estarão quentes, pois vou fazer delas um arremate para me manter de pé na ponta dos pés mudando meu eixo gravitacional apoiando em um espaço quente.
A pele vai ansiando na medida em que prevê a distância calculada pelos olhos sendo paulatinamente reduzida. Reduzida a distância somente da concentração, o esforço em reter a energia do movimento árduo do pequeno espaço de uma partícula.
O desejo vai se materializando pelas memórias mais recentes que apontam a concretude, a maior probabilidade de que o som do calçado contra o chão vai se intensificar. O som vai ecoar como em casa não mobiliada e até as paredes preverão êxtase com a mudança da corrente de ar.

No tempo de uns três parágrafos os botões irão cair e vou colar a orelha no espaço mais quente. Vou ouvir e que ouça novamente, novamente, o som, fisiológico, compassado, semântico, cardíaco.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Preto e Branco Expressionistas

        1 de fevereiro de 2011

        Uma escala de cinza vai derretendo e perde as formas até virar um preto e branco expressionista.
        Tristeza está sentada no sofá, sai de cena e entra Angústia em um quartinho. Quartinho meio apagado, meio abafado, meio vampiresco, meio assim, bem assim. Senta na cama, fecha as pálpebras com as mãos e cai encolhida.
        Angústia vai afundando no colchão de pouquinho em pouquinho e vai mais um pouco. Ela estende os braços para sair do buraco, mas já está fundo demais, ela não consegue fazer força. As bordas do Colchão estão se juntando, fica só uma frestinha de luz. O Colchão enterra a Angústia.
        Angústia abraça os joelhos e fica pequenininha, bem pertinho das paredes, colada nelas. Fecha os olhinhos e pede para não lembrar, pede para não chorar, pede para nem pensar, pede para dormir, pede para ficar quietinha.

Folhas Órfãs

         30 de junho de 2010

         Eram folhas douradas lançadas aos redemoinhos e todas diziam, venha com sua alma e esconda-se no ar. Sue os cabelos, sue o corpo inteiro e não pare de pular.
         Eram folhas soltas espalhadas, prenda seus pensamentos fora de si, escute a música e deixe seu sistema nervoso sobre as ondas sonoras.
         Eram folhas secas correndo no nada, que seu suor seja nosso orvalho.
         Eram folhas órfãs procurando um pedaço de abrigo, um lado sensível do ser.

Disposição até demais

        15 de maio de 2010

        Uma blusinha amarela, uma calça jeans, um tênis branco e uma disposição para ficar na cama olhando o movimento pendular de um relógio que nem existe mais.
        Uns amigos animados, uma música agitada, um lugar legal e uma disposição para assistir aos filmes que ganhei dos meus pais.
        Uma prova importante, uma atividade que vale nota, uma aula obrigatória e uma disposição para ler livros no conforto da própria casa.
        Uma bebida para curtir, uma droga do momento, uma galera de delirar e uma disposição para escrever e ouvir música.
        Uma animação para levantar a mãozinha para cima, um rapazinho cantando, umas meninas gritando e uma disposição para pular e “bater-cabeça”.
        Um pastor sempre aparecendo, uma igreja imensa, um cantor gospel famoso e uma disposição para compreender o evangelho.
        Um professor falando de técnica, um exercício didático, uma atividade de cálculo e uma disposição para aprender matemática.
        Um público fariseu, uns intelectuais contrafeitos, umas amigas bem relacionadas e uma disposição para conversar com samaritanos e gente chata.
        Provavelmente uma indisposição.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Cada Partícula


          A voz se aquieta cada vez mais e os ouvidos se desesperam. Duas mil e trezentas vozes tratam de mover cada partícula no ar envolta do corpo que não vos fala. Esmera-se em distinguir cada oscilação de partícula.

          Em todo segundo os ouvidos se corrompem, pois não escutam nada, e cada grão de estorvo continua a gritar. Eles acertam os olhos, entram nos ouvidos e inflamam a garganta. Cada um deles desviam a íris e cada um deles tratam de redemoinhar a mente. Eles não darão paz alguma. Alojam-se no crânio e agitam como chocalho de cascavel.

          Se o corpo não parar será embaraçado até que o mesmo dissolva-se frivolamente e todo grão caia sobre o aniquilado trazendo um ausente silêncio para o ser que ainda respira, mas permanece inanimado. Isso tudo se o ser se negar em acalmar os ouvidos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O Movimento Após | O Movimento Após | 2 de 2

                 Tirava os sapatos iniciando o movimento após o movimento do dia. Jogou-se de leve na poltrona e a inclinou para trás. Os braços abertos ficavam pendurados apontando a gravidade. Respirava fundo e suspirava. Estava fresco e o vento soprava na cortina transparente. Alguns papéis voaram. O chão estava limpo e a louça lavada.
                A cabeça encontrava-se confortável naquela poltrona que era quase um colo. A leveza era traduzida nos pés que se alongavam para aproveitar a folga dos sapatos e no jeito de olhar o teto branco. Levou a mão até o pescoço e massageou a nuca subindo até que os dedos entrelaçassem os cabelos.
                Sentia cada metro quadrado de descanso no corpo, a sensação que subia e extrapolava no sorriso chegava a ser empolgante. 

sábado, 19 de outubro de 2013

Antes do após | O Movimento Após | 1 de 2

                Ela já andava na rua esperando o momento. Com todo o movimento do dia uma leveza já acontecia. Com ela estava a ansiedade de chegar em casa contando cada passo a menos que dava.
                Não que o dia fosse um terrível terremoto, mas juntando o ócio ao agradável ela desejava muito que os próximos minutos fossem aquele ponto de espaço dentro de si, um silêncio e uma calmaria apreciáveis notados nos vídeos do ponto de vista de quem vê a Terra azul.
                Perto da porta já estava com a chave na mão, abriu, entrou e já sentiu o frescor do que iniciava naquele momento após o movimento do dia. Tirava os sapatos.